Só a Poesia Salva

tu poetizas, nós poetizamos, eu poetisa

12.01.2004

 

ciclo

como mulher, aprendi a me fazer nas perdas. Primeiro, o pai, partido desde cedo, na realidade e no imaginário de menina. Depois, o sangue, mensal. A pele, fina membrana. A gravidez, o parto: os filhos. A firmeza (as penas de uma fênix que não se renova nunca). Por fim, o homem. De amado, se torna perdido. De herói a bandido. Como o pai que (se) foi um dia. E, nas lacunas, construo minha identidade. Seja feita no vazio, seja na saudade.

posted by chihiro  # 6:51 PM
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10.03.2004

 

noite

Acho que suspiro que nem você
como o barulho do vento na janela
que a gente abre à noite
para os gatos e os sons passarem
através dos vidros, dos ventos,
dos tempos
Num minuto a gente se cala, e
esse silêncio fala mais do que
todos os livros na estante do quarto
da sala
E eu, nua, escuto o amor em sua canção
mais pura: sua respiração em minha nuca,
que arrepia, que aquece e, cadenciando,
me adormece

posted by chihiro  # 10:49 PM
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9.01.2004

 

prisma

hoje me disseram
que ando combinando roupas
como ninguém

acho que estou combinando
com as cores da vida

e as suas também

posted by chihiro  # 6:52 PM
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8.23.2004

 

uma canção inteira

A campainha tocou e, enquanto os cachorros latiam, ela andou até o portão. Mesmo antes de qualquer movimento, imaginou-o abrindo o sorriso e, ela, a porta. Ficaram os dois assim, parados, um milésimo de segundo antes de se abraçarem.
“Vamos embora”, ele disse. Ela abana a cabeça: “não, ainda não estou pronta. Tenho que trocar de roupa”. Largando os braços em torno do corpo, ele continua, a testa franzida: “Não, estou falando sério. Vem embora comigo. De verdade. Comigo; minha mulher”. As palavras saíam assim, fragmentadas, como soluços.
Ela deu dois passos para trás, soluçando junto, sentindo cada palavra dita voando ao seu redor. Indagava-se se ele estaria falando sério. Sua pergunta parecia estar em todo seu corpo: nas sobrancelhas contraídas, nos olhos ainda mais escuros, na posição tensa dos braços cruzados, nas chaves do carro rolando entre os dedos. E ela percebeu que era sério.
“Eu quero. Mas ainda não posso. É muito cedo”.
Silêncio. Ela sabia que ele não falaria nada. Da porta aberta do carro, o som ainda ligado deixava ouvir Dave Matthews cantando melancólico. Oh, and you come crash into me, and I come into you. No meio de tudo isso, ela se lembrou que ele não gostava de ouvir música pela metade, detestava interrupções.
Com Dave chorando alto, ele partiu. Ela ainda permaneceu no portão alguns segundos, pensando no cachorro que latia ao fundo, no cheiro de pão que vinha da padaria em frente, e na vida que passava sem música.
Gritou alto o nome dele; ele voltou. Ela sorriu e viu que a canção não havia terminado. Hike up your skirt a little more, and show your world to me.

posted by chihiro  # 6:17 PM
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8.16.2004

 

neurose

quanto mais escrevo
mais eu minto
mais eu creio
mais eu crio
mais eu grito

posted by chihiro  # 10:47 PM
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8.11.2004

 

questionamentos

perguntei a todos
uns disseram que sim
outros disseram que não
todos estavam certos
menos eu de perguntar

posted by Rafael  # 10:55 PM
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8.10.2004

 

penélope de ulisses

andava querendo um amor
que me fizesse nascer
poema e filho

agora não anseio mais

tenho já o poema
que construo
pegando as pedras do cotidiano

tenho também o amor
que costuro
cada retalho
cada dia
colorido
formando um grande tapete tecido
e me aquece quando não tenho inspiração

o filho
pode vir nas entrelinhas
quando for ocasião



posted by chihiro  # 1:00 PM
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christine ferreira
26 anos

quer me escrever?

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